Blog : Otite externa: um dos problemas mais comuns na clínica de cães

Isabela Mariano dos Santos Médica Veterinária - Clinica Santa Clara / Nova Lima - MG Pós-graduada em clínica e cirurgia de pequenos veja todos os artigos deste autor 20/08/2015 - Atualizado em 26/08/2016 h
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A otite externa é uma inflamação dos componentes do tecido mole do meato auditivo externo. Essa afecção constitui um dos problemas mais comuns e frustrantes encontrados na clínica de pequenos animais (BIRCHARD E SHERDING;2003). 

Esta patologia possui etiologia multifatorial envolvendo causas primárias, fatores predisponentes e perpetuantes.
As causas primárias são condições ou alterações que iniciam o processo inflamatório dentro do canal auditivo, destacam se causas alérgicas (alergia à picada de pulgas, atopias, hipersensibilidade alimentar), parasitas, doenças imunológicas e endócrinas (hipotireoidismo), ruptura da membrana timpânica, alterações de queratinização, corpos estranhos, além de desordens glandulares e anormaliddade na produção de cerúmen (SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).
Já os fatores predisponentes são aqueles que aumentam o risco do desenvolvimento da doença, facilitando a inflamação por promover ambiente propício para a continuação dos fatores perpetuantes. Exemplo: conformação anatômica do ouvido, com destaque para existência de dobras cutâneas e raças com orelhas pendular, umidade excessiva, efeitos de tratamento com alteração da microflora normal, trauma por limpeza inadequada, doenças obstrutivas e ainda qualquer doença sistêmica que leve a imunossupressão ou predisponha ao crescimento bacteriano (SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).

Já fatores perpetuantes ou persistentes são responsáveis pela continuação da resposta inflamatória, embora o fator primário original talvez não esteja mais presente ou ativo. Infecções bacterianas e fúngicas são os exemplos mais comuns (BIRCHARD & SHERDING; 2003). Subseqüentemente, os fatores perpetuantes sustentam e agravam o processo inflamatório. Os mecanismos incluem oclusão do canal; secreção de fatores irritantes; alterações do pH do canal e formação do foco da infecção. Os exemplos incluem infecções bacterianas (Staphylococcus intermedius, Proteus mirabilis, Pseudomonas aeruginosa, Corynebacterium spp, e Escherichia coli) e infecção levedural (Malassezia pachydermotis) (BIRCHARD & SHERDING; 2003). A dermatomicose de ouvido externo (otomicose) é causada por fungos do gênero microsporum, cândida, Tricophyton, aspergillus e peyronellaea. Malassezia pachydermatis (pityrosporum canis) é freqüentemente cultivado dos ouvidos dos cães e gatos com ou sem otite externa média, de modo que a importância desse microrganismo como patógeno é incerta (LINZMEIER; ENDO; LOT; 2009).


A infestação do conduto auditivo por ácaros é menos frequente, mas estima se que o Otodectes cynotis esteja presente em 5 a 10 % dos cães com oitete externa, enquanto os parasitas dos gêneros Demodex, Sarccoptes, Notoedris e Eutrombicula são raramente encontrados (SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).
Outros fatores perpetuantes incluem a presença excessiva de pelos no ouvido externo, modificações patológicas progressivas como hiperplasia, fibrose e estenose do contudo auditivo, abundante formação de cerúmen, neoplasias no conduto auditivo e ainda otite média com excessiva granulação de tecidos da bula timpânica (SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).
A inflamação crônica resulta na alteração do ambiente normal do canal; externo da orelha. O espessamento das dobras do canal reduz de forma eficaz a largura do canal; tendo como resultado final a calcificação da cartilagem auricular (TILLEY & SMITH JR; 2003).

O diagnóstico de otite externa é realizado através da anamnese e do exame físico.
Os achados do exame físico nos mostram um avermelhamento e tumefação do canal externo, levando à estenose; descamação e exsudação, podendo resultar em mau cheiro e obstrução do canal (LINZMEIER; ENDO; LOT; 2009). Prurido e dor auricular são sintomas comuns de otite externa. Pode-se constatar esfregação de cabeça e orelha, ato de balançar a cabeça, Otohematoma e ou inclinação da cabeça, com a orelha atingida posicionada para baixo (TILEY & SMITH JR; 2003). Com freqüência nota-se secreção auricular, às vezes fétida. Nos casos agudos, a região interna do pavilhão auricular e conduto auditivo geralmente apresentam eritema e edema. Esse conduto pode apresentar, também, erosões ou úlceras. Alopecias, escoriações e crostas no pavilhão auricular são comuns (LINZMEIER; ENDO; LOT; 2009. SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).


O diagnóstico é baseado na anamnese, exame clínico através de otoscopia, citologia auricular, cultura e antibiograma, biopsia e radiografia. (BESSOLI; 2008) O diagnóstico baseia-se em histórico e sintomas em exames clínicos através do otoscópio a qual área avaliar o grau de inflamação, estenose, alterações proliferativas, quantidade e natureza de debris e secreção, presença de corpo estranho, ectoparasitas, massas e integridade da membrana timpânica; a microscopia (swab de ouvido); irá investigar a presença de ovos e ácaros de sarna otodécica e demodécica; a citologia (swab de ouvido) irá investigar a presença de bactérias, leveduras, hifas, cerúmen, leucócitos e células neoplásicas; a cultura bacteriana indicada quando são encontrados bactérias no exame citológico, apesar de terapia antibiótica, ou quando há suspeita de otite média; radiografia ou tomografia computadorizada há evidência de envolvimento bolhoso (esclerose, opacificação) em aproximadamente 75% dos casos de otite média; histopatologia da pele (caso haja massa no conduto auditivo) indicando em com suspeita de neoplasia (LINZMEIER; ENDO; LOT; 2009)
O tratamento de uma otite externa deve abranger a limpeza do ouvido para controle dos fatores predisponentes e tratamento da causa primária.


A otite externa não tratada ou maltratada pode conduzir a otite média, surdez, otite interna, síndrome vestibular, paralisia do nervo facial e, raras situações meningoencefalite. Neste contexto, a limpeza do ouvido e o uso de fármacos antiinflamatórios e antimicrobianos são de extrema importância, no entanto, o tratamento veterinário deve ser específco para cada paciente, a fim de previnir recorrências, resistência bacteriana e cronificação (SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).
Aproximadamente 80-85% dos casos de otite podem apresentar resolução apenas com a terapia tópica. A terapia sistêmica é menos eficaz que a terapia tópica, sendo indicada nos casos de otite externa grave, com alterações proliferativas importantes, impossibilidade de tratamento tópico pelo proprietário e histórico de reações adversas aos agentes tópicos. (SCHERER, HORTA, COSTA VAL; 2013).


Os tutores ou proprietários desses pacientes devem receber instruções sobre a importância e forma de realização correta do tratamento e que se o tratamento for realizado de forma incorreta pode piorar o quadro. A colaboração e comprometimento são fundamentais para o sucesso do tratamento, a fim de evitar a recorrência e a cronificação do processo, assim como a seleção de micro-organismos multi-resistentes.

 

Referência


BIRCHARD, S. J; SHERDING, R. G. Manual Saunders: clínica de pequenos animais. Roca, São Paulo, 2º edição; 2003.
TILLEY, L. P; F. W. K. Consulta veterinária em 5 minutos. Editora Manole, são Paulo 2º edição; 2003.
LINZMEIER, Geise Lissiane; ENDO, Rosilaine Mieko; LOT, Rômulo Francis. Otite Externa. Revista Científica Eletrônica De Medicina Veterinária. ISSN: 1679-7353. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia de Garça – FAMED/FAEF. Editora FAEF. São Paulo. Ano VII. N. 12. Jan. 2009. Acesso em: 16 maio 2015. Disponível em:< http://faef.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/ZjT2hdBx69kFTWR_2013-6-21-12-3-2.pdf>

SCHERER, Carolina Boesel; HORTA, Rodrigo dos Santos; COSTA VAL Adriane Pimenta da. Otite Externa. In.: Dermatologia em Cães e Gatos. Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia (Cadernos Técnicos da Escola de Veterinária da UFMG). Ed. FEPMVZ. Belo Horizonte. ISSN 1676-6024. N. 71. Dez. 2013.

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